1. Ter o domínio do que pretende que seja aprendido. Há
um ditado popular que diz “que quem não sabe ensina”. O bom professor
prova que esse ditado está errado, só quem realmente sabe, ensina de
modo efetivo a ponto do aprendizado ser completo. O aprendizado se dá
não se o estudante sabe repetir enunciados sobre o que ouviu, mas se, de
acordo com os conteúdos que foram ensinados, opera com eles em sua vida
por meio de comportamentos e hábitos que passa a ter, e que antes não
tinha.
2. Ter a capacidade de se colocar no lugar do aluno, ouvindo-o e levando-o a sério.
Muitos adultos, pais e professores fazem “café com leite” das crianças.
Jogam com eles através de artifícios. Esses artifícios começam cedo,
quando elas são pequeninas (deixando-as ganhar em jogo que elas não
entendem etc.) e, depois, erradamente, se mantém na escola. Eis então
que toda a arte da conversação se torna falsa e mais falsa ainda quando a
didática é artificial. O aluno percebe logo que esses adultos vivem na
artificialidade e, então, identificam também no professor e na escola
essa situação “de brincadeirinha”, ele ou se revolta ou se adapta de
modo pouco produtivo ou aparentemente produtivo.
3. Saber convencer. O
bom professor é alguém que “vende o seu peixe” ou “ganha o aluno para o
seu negócio”. Não se ensina por meio de frases doutrinárias ou textos
excessivamente posicionados que se negam a oferecer boas razões do que
defendem. A conversação em sala de aula é um “dar e receber razões”. O
professor é uma pessoa persuasiva ou não é professor. Mas a persuasão do
professor não é qualquer uma, ela é feita por mostrar razões e ele
ensina por meio de solicitar razões.
4. Ser razoável. Uma
das coisas mais difíceis para o professor é ser razoável. Em geral ele
ou cria situações que são impossíveis do aluno cumprir, que ele próprio,
professor, não conseguiu e não conseguiria cumprir em situação normal,
ou então ele adota a postura de “passar a mão na cabeça”, tomando os
alunos como incapazes e facilitando o serviço deles para além da conta.
Na sala de aula o professor faz o jogo de “dar e pedir razões” quanto ao
conteúdo, mas na postura geral quanto aos alunos vale sua capacidade de
ponderar, perante si mesmo, se ele realmente é uma pessoa razoável ou
apenas alguém inconseqüente.
5. Ter grande percepção de si mesmo.
O bom professor é um analista de si mesmo. Estou bem vestido para ir
dar aula? Minha voz é boa? Estou atento aos alunos ou sou desleixado?
Sou capaz de admitir quando erro? Gosto da atividade de professor? Tenho
capacidade de não me deixar levar por impulsos meus, e inclusive por
complexos psicológicos? Tenho mesmo a capacidade de ajudar os alunos ou
sempre acho que há algum caçoando de mim, e quero prejudicá-lo. Trabalho
antes por vingança contra aluno que por entender que faço parte de um
grupo de elite que é “formador de opinião”? O professor que não consegue
ser sincero para si mesmo diante dessas perguntas, que não consegue se
preparar com isso, nunca será um bom professor. Preparar a aula é, antes
de tudo, preparar a si mesmo.
6. Ter capacidade de compreender a profissão. O
bom professor conhece a dimensão pedagógica, política e sindical de sua
profissão. Na dimensão pedagógica, ele é alguém que não se admite
despreparado para uma aula. Se não sabe, busca aprender. Na dimensão
política, ele sabe que é um cidadão com o qual a sociedade conta como
mais qualificado que outros, que é dele que se espera a vinda das idéias
para as melhores mudanças. Na dimensão sindical ele mostra conhecer a
legislação que rege o ensino e também a que rege a sua própria carreira.
Está sempre pronto para atuar na articulação entre necessidades
sindicais e necessidades pedagógicas. Não é bom professor aquele que
nunca leu um bom manual de filosofia e história da educação brasileira.
7. Ser um leitor consciente.
O bom professor não tira a cópia Xerox e nem incentiva o Xerox que,
aliás, é crime. Ele valoriza o livro, educa seus alunos para terem uma
mini-biblioteca, a freqüentarem livrarias presenciais ou virtuais.
Fomenta o gosto pela leitura e, principalmente, ensina seus alunos a ler
no sentido da ampliação do texto, não no sentido do “fichamento” ou
“resumo”. Ele próprio é um leitor atento para todas as variáveis do
texto, para o autor, jamais opinando somente porque leu o título ou
fazendo do texto um pretexto para falar sobre outro assunto que não
aquele que diz comentar. O professor de “cabeça cheia”, ou seja, aquele
que só tem uma idéia e tudo que lê absorve segundo aquela idéia, gerará
alunos frustrados ou então alunos limitados como ele.
8. Ser um desbravador criativo. Alunos
são crateras ferventes, em vários níveis. Na adolescência, o vulcão
entra em erupção. O professor não deve temer isso. Ele também foi
criança e jovem. Não pode temer o seu passado. Deve compreender suas
angústias e verificar se conseguiu superá-las. Caso tenha conseguido,
poderá indicar caminhos para os alunos. Caso não tenha conseguido, deve
se precaver para não perder o auto-controle diante dos problemas dos
alunos que, enfim, o fazem lembrar que ele também não superou sua
adolescência. Em um determinado nível, nunca somos adultos. No entanto,
como professores, devemos saber quando é que o problema do aluno é o
nosso, e como que não podemos nos perder nessa possível confusão. A
conversa com os jovens fora da sala de aula, tentando compreendê-los,
pode manter a profissão em seu exercício possível, diário, difícil, às
vezes até perigoso. Entrar em novos campos exige capacidade criativa.
Enfrentar a vida é para quem tem imaginação.
9. Ser capaz de fazer do aprendizado uma tarefa coletiva e desafiadora. A
pior situação que o professor pode criar é aquela em que ele não
consegue mostrar que os problemas que irá tentar resolver em sala de
aula, durante o ano letivo, não são só dele ou “da escola” ou “para
cumprir etapa”. Os problemas são problemas de todos. São desafios que
devem ser postos para toda a classe que o professor tem diante de si e
para ele mesmo. Posto um problema, o professor deve convidar os alunos a
enfrentá-lo junto com ele, pois se trata de um problema de todos – real
problema de todos. Ninguém escapa de problemas que se universalizam e
que, por isso, são também particulares, que estão acontecendo com cada
um de nós. Compreendido isso, então o problema ou “a matéria” se torna
um desafio interessante e válido para o estudante. Do mesmo modo que ela
o é para o professor – ou deveria ser.
10. Ser curioso. O
professor é curioso ou não é nem nunca será professor. O professor que
toma o assunto que irá ensinar não problemático, sem algo que desperte
sua curiosidade e, então, seja capaz de aguçar a curiosidade do aluno,
inclusive sua imaginação, não tem qualquer habilidade para ser
professor. Deve desistir.
Nenhum comentário:
Postar um comentário